quinta-feira, 30 de abril de 2026

Carta ao Douglas menino

 Oi, Douglas. Eu sou o Douglas, e você também.


mas eu sou você daqui a muito tempo.

Eu sei que aí, nos anos 90, tudo vai parecer

"normal".

"Engole o choro", "Homem não chora", "Mulher é tudo igual".

Banheira do Gugu no almoço em família

Os cara bêbado desenrolando

as mina na função trabalhando

Tiazinha semi-nua na figurinha do chiclete.

É vagabunda, puta, piranha, viadinho, bichinha, baitola.

Brincar sem roupa com a amiguinha? Tá tudo bem.

Com o amiguinho, cê vai pro inferno!


Quase ninguém te ensinou a ser gente, menino.

Te ensinaram a ser homem

mais ou menos.


Mais o homem do contrato social

Menos o homem que você poderia ser.


Esse até hoje, mais de 20 anos depois de onde você tá agora, eu não sei bem quem é.

É 2026, e o mundo tá acabando, de novo,

mas o Sol que brilha hoje ainda é o mesmo Sol que brilhou em você

apesar de todos, quando você tentava entender o que tinha de tão errado 

que parecia que ninguém gostava de você.

Quando você tava aprendendo a esconder tudo que te fazia gente

                emoções, sentimentos, lágrimas, sofrimento.

Te ensinaram a se odiar, parceiro.

E, por consequência, a odiar tudo fora de você.

Ainda que de modo velado. 

                            (Fórmula nada secreta da pílula vermelha)

Tipo bicho que tá sempre pronto pra dar o bote,

mas espera com paciência escondido em silêncio.

Te ensinaram a odiar mulheres que não são as mulheres da figurinha de chiclete,

que não são as que figuravam em cada outdoor, que não são as que pegavam sabonete da banheira do Gugu, que não são as putas que você ouviu falar na escola.

Te ensinaram a odiar homens, porque por eles você só queria ser aceito.

Homoafetividade velada.

E não importa o quanto você tentou não odiar os outros,

você se odeia, e o outro, por ser espelho, se torna o inferno.

essa programação tá enterrada kilometros abaixo das camadas que você consegue perceber.

Hoje, criança interior, mesmo vendo com mais clareza, 

ainda me perco na incerteza, de como apenas ser o que sou.

Já vivi 37 anos e ainda tô aprendendo a não engolir o choro. Ainda não consigo fazer isso na frente de ninguém; ainda escondo o rosto com as mãos para que as lágrimas sejam contidas.

Ainda tô aprendendo a não ter ódio de mim.

Eu que muito erro e muito acerto, me sinto vivendo numa corda bamba entre esses dois, 

tentando encontrar o limiar entre o que eu entendo e o que meu inconsciente cansou de guardar.

Vem pra superfície, pequeno Douglas, ninguém mais vai te machucar. 

Hoje não tem mais bullying na escola: agora, é você que pratica bullying com você mesmo.

Mas, eu tenho fé, que com isso a gente pode parar.


Douglas, cuidado, esse homem que tão tentando fazer você se tornar não sabe chorar. 

Ele acha que é forte, mas a máquina do capital neocolonial subverteu o que é força. Te fizeram achar que é pouco se expressar, que é jogar todas as suas emoções num grande armário de plástico, que é gastar. Só não te falaram que emoção é quente, sentimento é denso, e o armário, mais cedo ou mais tarde, vai derreter, vai quebrar.

E quando o homem cai do armário quebrado, ele destrói tudo que estiver ao seu redor.

Ele tem tanto ódio de si mesmo, que tudo vira um grande espelho, e é preciso sorte para conseguir quebrar esse espelho sem atravessar ele e ir parar do outro lado, sem volta.

Porque do outro lado habita o fim,

Habita o fim das possibilidades. Habita a agressão à mina que te acompanha, habita o abuso, o assédio. 

Habita o horizonte de eventos que, tal qual com o buraco negro, não tem passagem de volta, apenas de ida rumo à tua desfragmentação, à mais absoluta remoção de fazer algo diferente. Habita o fim. 

Tudo porque não te ensinaram a ser gente,

te fizeram achar que era máquina, 

te vendaram os olhos e te extirparam do que é

Ser

Humano.

Ver gente antes de ver mulher e homem.

Ver acolhimento antes de ver competição.

Acolher antes de validar.

Se é preciso validação, é porque faltou acolhimento.

Se há ódio, é porque faltou amor. 

Se há desejo, há falta.

Infeliz ou felizmente, criança das sombras de mim,

você não vai ter muitas escolhas tão cedo,

mas quando perceber que pode ser teu próprio guia,

caminha em direção à luz.

mas não esquece que ela tá longe,

que é trabalhoso andar, 

que o caminho é imenso,

e que no meio dele você vai acabar olhando pra trás,

e aí você vai ter duas opções:

correr de volta em direção à própria sombra, 

que encolhe o caminho pelo qual você já passou,

que te olha com olhos sangrando e te lembra

que nela é mais fácil viver,

mas ela mente, e não é por ser ruim, não

mas por ser a representação última do medo que te habita.

A outra opção é lembrar quando olhar pra trás a identificar os padrões que te fizeram sofrer, encarar eles no fundo dos olhos bem abertos e não reagir, aí eles vão perceber que são besta e vão parar de te perseguir.

Igual quando você tá andando na rua

e um cachorro brabo resolver ir atrás de você

Se correr, fudeu.

Se olhar por um momento e só olhar,

ele é quem vai ter de medo de você e do que você tá se tornando.

Enfim, se eu puder te dar um conselho, versão ainda inocente de mim, com tudo pra viver e se deleitar e sofrer, é o seguinte:

CHORA!

Porque chorar é expurgar da carne o que nela não deve habitar.

Você vai esquecer disso várias vezes no caminho, 

mas essa verdade reside em ti desde que a luz te recebeu no seu nascimento.

No princípio, veio o choro, e é só por causa dele que você começou a respirar.

É com ele que você lembra o que é ser humano,

ele que é o abrir mão completamente do controle, ele é se entregar, se render, ainda que só por um momento.

Sem ele, você é um vulcão contendo a própria erupção.

Lágrima contida vira fogo interno,

e não o tipo de fogo bom, que dá vida, que purifica,

mas o que queima e dói no fundo da alma,

e vulcão que contém erupção explode

e acaba com tudo ao seu redor.

Eu te amo, parceiro interno, ou tô aprendendo a te amar.

quinta-feira, 12 de março de 2026

te olhar é meio que assim

te olhar é ficar pasmo

é o contrário de pensar

é querer mais

ir te conhecendo

sem nunca te conhecer completamente


te olhar é meio que

vamos

sem saber pra onde

é meio que entender que tem coisa que eu não entendo

perceber que se permitir sentir pode ser bom

suave

tipo olhar dentro do teu olho

te olhar é

vontade

de você

de ir passando linha por linha

sem saber onde vai chegando a próxima ideia


te olhar é como que fluir pro presente

é tipo meditação

na intenção de chegar onde for pra chegar

é não julgar

aceitar

que é o mesmo que amar


perceber que é possível sentir isso tudo e não me perder de mim

é bagunçar

mas uma bagunça boa

quando a gente tá cuidando de si

é tipo dia quente de verão com sombra pra ficar e brisa pra tirar

a bagunça não é de se perder de si

mas de rio que começa a fluir forte depois de um dia de chuva,

bagunça de cozinha depois de janta

de quarto depois da gente

de folha navegando a grama com o vento


se fosse só o olhar

tem também te beijar

te beijar é respirar depois de afundar

falta ar

cheio de clichezinho


besta


baguncinha boa nessa mente que já viveu e já morreu um tanto

pra entender que viver,

como bem canta Gaia Piá

"é tá sempre pronto pra partir"

e isso é tão preciso que assusta

aí a gente olha de novo e vê

que além de ir embora

partir também é chegar

é rompimento, quebra

desfazimento de coisa passada

saber que a vida faz da gente o que ela quer

e aí ela dá querer pra gente lidar também

dá vontade de passar um dia todo com você no sofá

esquecer que tem um mundo lá fora

de viver.


não te quero pra sempre

nem a vida quero pra sempre

te quero enquanto a gente se quiser

e depois sigo andando

não em busca

mas em aceitação

de viver o que a vida é

não o que eu acho que ela devia ser.


o que eu acho vale é pouco

o que eu sinto vale é tudo


te olhar é ficar meio besta assim

é meio que

sentir

sem pesar.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Joshua Poetry - tradução > Culpado pela própria dor

 Por que me sinto tão culpado sobre minha própria dor?

Como se eu tivesse quebrado a mim mesmo e não merecesse ajuda

Porque, mano, 

eu tenho um monte de responsabilidades, obrigações, preciso trabalhar, 

eu não tenho muito tempo pra sentir minha dor.

mas mesmo que eu tivesse, e se não for o suficiente?

E se o que quase me matou não é tão ruim quanto o que outras pessoas passam?

Metade do mundo tá chorando, queimando, doente e morrendo,

e eu falo, a vida é embaçada, 

Não, eu não mereço sentir minhas dores...

eu não tô quebrado o suficiente.

MAS QUE IDEIA DE MERDA É ESSA?!

Eu tô justificando a dor, dividindo ela em diferentes partes da minha mente, 

"ah, isso que eu passei não é tão ruim

É provavelmente minha culpa que eu me sinta assim..."

....

Não me surpreende que por conta disso eu me odeie, que eu sinta ódio de mim

porque eu tô carregando toda essa dor

e não me é permitido curá-la

por que quão egoísta da minha parte seria sentir a minha própria dor?

E eu não quero que ela pare de doer

Eu só quero que comece.

Eu quero SENTIR A DOR

eu quero sentir porque isso é HUMANO.

eu quero sentir isso porque isso sou eu

eu quero sentir minhas dores sem sentir culpa

mas

como eu faço isso?

como eu faço isso?

como eu faço isso....



 

Carta ao Douglas menino

 Oi, Douglas. Eu sou o Douglas, e você também. mas eu sou você daqui a muito tempo. Eu sei que aí, nos anos 90, tudo vai parecer "norma...