Oi, Douglas. Eu sou o Douglas, e você também.
mas eu sou você daqui a muito tempo.
Eu sei que aí, nos anos 90, tudo vai parecer
"normal".
"Engole o choro", "Homem não chora", "Mulher é tudo igual".
Banheira do Gugu no almoço em família
Os cara bêbado desenrolando
as mina na função trabalhando
Tiazinha semi-nua na figurinha do chiclete.
É vagabunda, puta, piranha, viadinho, bichinha, baitola.
Brincar sem roupa com a amiguinha? Tá tudo bem.
Com o amiguinho, cê vai pro inferno!
Quase ninguém te ensinou a ser gente, menino.
Te ensinaram a ser homem
mais ou menos.
Mais o homem do contrato social
Menos o homem que você poderia ser.
Esse até hoje, mais de 20 anos depois de onde você tá agora, eu não sei bem quem é.
É 2026, e o mundo tá acabando, de novo,
mas o Sol que brilha hoje ainda é o mesmo Sol que brilhou em você
apesar de todos, quando você tentava entender o que tinha de tão errado
que parecia que ninguém gostava de você.
Quando você tava aprendendo a esconder tudo que te fazia gente
emoções, sentimentos, lágrimas, sofrimento.
Te ensinaram a se odiar, parceiro.
E, por consequência, a odiar tudo fora de você.
Ainda que de modo velado.
(Fórmula nada secreta da pílula vermelha)
mas espera com paciência escondido em silêncio.
Te ensinaram a odiar mulheres que não são as mulheres da figurinha de chiclete,
que não são as que figuravam em cada outdoor, que não são as que pegavam sabonete da banheira do Gugu, que não são as putas que você ouviu falar na escola.
Te ensinaram a odiar homens, porque por eles você só queria ser aceito.
Homoafetividade velada.
E não importa o quanto você tentou não odiar os outros,
você se odeia, e o outro, por ser espelho, se torna o inferno.
essa programação tá enterrada kilometros abaixo das camadas que você consegue perceber.
Hoje, criança interior, mesmo vendo com mais clareza,
ainda me perco na incerteza, de como apenas ser o que sou.
Já vivi 37 anos e ainda tô aprendendo a não engolir o choro. Ainda não consigo fazer isso na frente de ninguém; ainda escondo o rosto com as mãos para que as lágrimas sejam contidas.
Ainda tô aprendendo a não ter ódio de mim.
Eu que muito erro e muito acerto, me sinto vivendo numa corda bamba entre esses dois,
tentando encontrar o limiar entre o que eu entendo e o que meu inconsciente cansou de guardar.
Vem pra superfície, pequeno Douglas, ninguém mais vai te machucar.
Hoje não tem mais bullying na escola: agora, é você que pratica bullying com você mesmo.
Mas, eu tenho fé, que com isso a gente pode parar.
Douglas, cuidado, esse homem que tão tentando fazer você se tornar não sabe chorar.
Ele acha que é forte, mas a máquina do capital neocolonial subverteu o que é força. Te fizeram achar que é pouco se expressar, que é jogar todas as suas emoções num grande armário de plástico, que é gastar. Só não te falaram que emoção é quente, sentimento é denso, e o armário, mais cedo ou mais tarde, vai derreter, vai quebrar.
E quando o homem cai do armário quebrado, ele destrói tudo que estiver ao seu redor.
Ele tem tanto ódio de si mesmo, que tudo vira um grande espelho, e é preciso sorte para conseguir quebrar esse espelho sem atravessar ele e ir parar do outro lado, sem volta.
Porque do outro lado habita o fim,
Habita o fim das possibilidades. Habita a agressão à mina que te acompanha, habita o abuso, o assédio.
Habita o horizonte de eventos que, tal qual com o buraco negro, não tem passagem de volta, apenas de ida rumo à tua desfragmentação, à mais absoluta remoção de fazer algo diferente. Habita o fim.
Tudo porque não te ensinaram a ser gente,
te fizeram achar que era máquina,
te vendaram os olhos e te extirparam do que é
Ser
Humano.
Ver gente antes de ver mulher e homem.
Ver acolhimento antes de ver competição.
Acolher antes de validar.
Se é preciso validação, é porque faltou acolhimento.
Se há ódio, é porque faltou amor.
Se há desejo, há falta.
Infeliz ou felizmente, criança das sombras de mim,
você não vai ter muitas escolhas tão cedo,
mas quando perceber que pode ser teu próprio guia,
caminha em direção à luz.
mas não esquece que ela tá longe,
que é trabalhoso andar,
que o caminho é imenso,
e que no meio dele você vai acabar olhando pra trás,
e aí você vai ter duas opções:
correr de volta em direção à própria sombra,
que encolhe o caminho pelo qual você já passou,
que te olha com olhos sangrando e te lembra
que nela é mais fácil viver,
mas ela mente, e não é por ser ruim, não
mas por ser a representação última do medo que te habita.
A outra opção é lembrar quando olhar pra trás a identificar os padrões que te fizeram sofrer, encarar eles no fundo dos olhos bem abertos e não reagir, aí eles vão perceber que são besta e vão parar de te perseguir.
Igual quando você tá andando na rua
e um cachorro brabo resolver ir atrás de você
Se correr, fudeu.
Se olhar por um momento e só olhar,
ele é quem vai ter de medo de você e do que você tá se tornando.
Enfim, se eu puder te dar um conselho, versão ainda inocente de mim, com tudo pra viver e se deleitar e sofrer, é o seguinte:
CHORA!
Porque chorar é expurgar da carne o que nela não deve habitar.
Você vai esquecer disso várias vezes no caminho,
mas essa verdade reside em ti desde que a luz te recebeu no seu nascimento.
No princípio, veio o choro, e é só por causa dele que você começou a respirar.
É com ele que você lembra o que é ser humano,
ele que é o abrir mão completamente do controle, ele é se entregar, se render, ainda que só por um momento.
Sem ele, você é um vulcão contendo a própria erupção.
Lágrima contida vira fogo interno,
e não o tipo de fogo bom, que dá vida, que purifica,
mas o que queima e dói no fundo da alma,
e vulcão que contém erupção explode
e acaba com tudo ao seu redor.
Eu te amo, parceiro interno, ou tô aprendendo a te amar.
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