sábado, 24 de outubro de 2026

Brasil por quem

essa tua língua brasileira
esse teu jeito cheio de afeto de ser
esse abraço sincero em desconhecido dividindo cerveja no bar
em copo pequeno pra acabar rápido e encher de novo o copo de todo mundo
o café de manhã depois da noite de dança dança dança
o interesse estrangeiro sempre batendo na porta
almoço de domingo em família cerveja e conversa besta
e o preço do dólar dando pitaco no tempero
o jeito brasileiro de celebrar qualquer coisa
quebrando tudo sem quebrar nada
                ainda que nem sempre
mesmo com a própria história tudo quebrada  
desafetada desacreditada
cansada
mas que segue
rasga e remenda
e lembra da coragem
e que apesar de tudo
é tempo também de sorrir
no mesmo tempo de lutar
derramar sangue sem nem saber se vai coagular
que porra é ser brasileiro
sem querer
de repente se perceber ali
no meio do paraíso
só não disseram na tv quando eu pequeno assisti
que o paraíso tava infectado
cheio de sanguessuga pra tudo que é lado
não falaram que

"A pobreza não está escrita nas estrelas. O subdesenvolvimento não é fruto de um obscuro desígnio de Deus. Correm anos de revolução, tempos de redenção. As classes dominantes põem as barbas de molho e, ao mesmo tempo, anunciam o inferno para todos".

fantasticamente realista
tipo conversa com quem morreu num sábado à tarde
no meio de um lugar bonito
num dia de sol
ouvindo Cartola
numa alegria triste
lembrando do fundo da alma
da delícia que é esse lugar
dessa gente que abraça
                 ainda que nem sempre
e que dá um jeito de sorrir
mesmo em meio à desgraça
mesmo com o concreto morto do capital
caindo do céu em ruína
em cada manhã de brasil 
em que disseram que

"convencer os pobres de que a pobreza é consequência dos filhos que não evitam (...). No sudeste asiático os dispositivos intrauterinos competem com bombas e metralhadoras no esforço de deter o crescimento da população do Vietnam. Na América Latina, é mais higiênico e eficaz matar guerrilheiros no útero do que nas montanhas ou nas ruas. Diversas missões norteamericanas esterilizaram milhares de mulheres na Amazônia, embora seja esta a zona habitável mais deserta do planeta. Na maior parte dos países latino-americanos não sobra gente: falta".

a delicadeza da dominação cultural
crescer aprendendo hollywood na televisão
assistir a glória de uma nação

terrorista
"Foram identificadas aproximadamente 400 intervenções militares americanas entre 1776 e 2019, sendo cerca de metade delas realizadas entre 1950 e 2019".

antes disso
aprendeu bem 
"O Império Britânico invadiu ou teve presença militar em cerca de 171 dos 193 países reconhecidos pela ONU ao longo da história — o que corresponde a quase 90% do globo"

enquanto isso 
a Espanha protagoniza o assassinato de mais de 2 terços de um continente
de 50 a 70 milhões de seres humanos 
violados
aniquilados
mal lembrados

"A história é um profeta com o olhar voltado para trás ao que foi, e contra o que foi, anuncia o que será."

"a monocultura é uma prisão. (...)".

queima

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

teimosamente

"Teimosamente, as crianças latinoamericanas continuam nascendo, 
reivindicando seu direito natural de ter um lugar ao sol nessas terras esplêndidas, 
que poderiam dar a todos o que a quase todos negam". (Galeano)

capital morreu dentro do feudo tecnológico que te sangra
dissolveu a fraca estrutura que sustentava 
a narrativa que dizia que a escravidão um dia acabou
subverteu cada palavra que te conectava
a quem do seu lado aos poucos se perdia
em discurso trabalhado e aperfeiçoado
pra desviar olhos e espíritos do (problema) real
"a pobreza do homem como resultado da riqueza da terra"
a ironia de nascer em berço esplêndido
mas embalado por mão estrangeira
que te espera crescer
te ensina a servir
 te mostra o que é existir
  obediente máquina que produz a própria ruína
eles acham que se fizeram à prova de guilhotina

  low-key tyranny
se a é guerra de palavras
que a imaginação cumpra o que a realidade ainda não
escravos de senhores que se decompõem em praça pública
em dia ensolarado de paz absurda
permeado pelo aroma amargo do fim 
afogados no próprio sangue com gosto de história bruta
em memória de cada corpo violado
história aberta
desenfeitada
sem rima
crua.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

heat

where are we goin
once again
and we've been warned
"time
and
again"
we weren't even there
but it has always lived 
through us
and it's saying hi again
from a dark corner
like a bad memory
from a bad dream
in another life
whatever we say
keeps peace away
communication
is broken
"war
is
peace"
we speak the same words 
but hear different notes
"us
and
them"
and we've been told
how it would unfold
over and over

you and me
cosmic miracle
turned
comic and cynical




terça-feira, 22 de setembro de 2026

ao fim!

quem diria
             distopia
         outra crise           
"essa que deve ser a derradeira"
                        ouvi por aí 
                (time and time again)
a pequena morte
de um estado que se dizia unido
mas tanto se separou
que se perdeu
fim de império vem
       (ao fim!)
mais como fim de noite 
do que como fim de história 
parece que nada muda
e de repente já não é mais 
humano que tanto acabou
quase esqueceu que 
sempre nasceu 
de novo
não melhor 
diferente só 
tipo página em branco
de caderno cheio
de linha torta
pronta pra receber história nova.

sábado, 19 de setembro de 2026

de palavra a tela

pintar de palavra a tela
pra ver
com tinta cor de mar profundo
ou céu azul
pincel de pensamento
que nem sempre rima
em traço nem sempre firme
mas que aos poucos deixa evidente
a imagem que vem à luz
dependente
sem significado 
até você observar 
e tudo se tornar cor e som
mas nem sempre.
só vai saber 
quem sabe(?)

terça-feira, 8 de setembro de 2026

tempo



cada palavra me lembra
que o que eu tenho é
muito mais do que o que falta
que o que é doce é
muito mais do que o que amarga
a boca seca do passado
que desacreditou do meu presente
que ainda assim chegou
pra me lembrar
que tempo é rei,
que te governa
feito tirano
dita teus caminhos
sempre atados ao que um dia tu já foi
e feito flecha
direcionados por cada escolha (tua?)
rumo a outro presente
que não se importa
com antes nem com depois
"rei não há,
já que não há tempo"
brinca o movimento
te persuadindo
te convencendo
a fluir como flui rio
até você perceber
que se nada tem
nada te falta
só te sobra ser, humano



quinta-feira, 30 de abril de 2026

Carta ao Douglas menino

 Oi, Douglas. Eu sou o Douglas, e você também.


mas eu sou você daqui a muito tempo.

Eu sei que aí, nos anos 90, tudo vai parecer

"normal".

"Engole o choro", "Homem não chora", "Mulher é tudo igual".

Banheira do Gugu no almoço em família

Os cara bêbado desenrolando

as mina na função trabalhando

Tiazinha semi-nua na figurinha do chiclete.

É vagabunda, puta, piranha, viadinho, bichinha, baitola.

Brincar sem roupa com a amiguinha? Tá tudo bem.

Com o amiguinho, cê vai pro inferno!


Quase ninguém te ensinou a ser gente, menino.

Te ensinaram a ser homem

mais ou menos.


Mais o homem do contrato social

Menos o homem que você poderia ser.


Esse até hoje, mais de 20 anos depois de onde você tá agora, eu não sei bem quem é.

É 2026, e o mundo tá acabando, de novo,

mas o Sol que brilha hoje ainda é o mesmo Sol que brilhou em você

apesar de todos, quando você tentava entender o que tinha de tão errado 

que parecia que ninguém gostava de você.

Quando você tava aprendendo a esconder tudo que te fazia gente

                emoções, sentimentos, lágrimas, sofrimento.

Te ensinaram a se odiar, parceiro.

E, por consequência, a odiar tudo fora de você.

Ainda que de modo velado. 

                            (Fórmula nada secreta da pílula vermelha)

Tipo bicho que tá sempre pronto pra dar o bote,

mas espera com paciência escondido em silêncio.

Te ensinaram a odiar mulheres que não são as mulheres da figurinha de chiclete,

que não são as que figuravam em cada outdoor, que não são as que pegavam sabonete da banheira do Gugu, que não são as putas que você ouviu falar na escola.

Te ensinaram a odiar homens, porque por eles você só queria ser aceito.

Homoafetividade velada.

E não importa o quanto você tentou não odiar os outros,

você se odeia, e o outro, por ser espelho, se torna o inferno.

essa programação tá enterrada kilometros abaixo das camadas que você consegue perceber.

Hoje, criança interior, mesmo vendo com mais clareza, 

ainda me perco na incerteza, de como apenas ser o que sou.

Já vivi 37 anos e ainda tô aprendendo a não engolir o choro. Ainda não consigo fazer isso na frente de ninguém; ainda escondo o rosto com as mãos para que as lágrimas sejam contidas.

Ainda tô aprendendo a não ter ódio de mim.

Eu que muito erro e muito acerto, me sinto vivendo numa corda bamba entre esses dois, 

tentando encontrar o limiar entre o que eu entendo e o que meu inconsciente cansou de guardar.

Vem pra superfície, pequeno Douglas, ninguém mais vai te machucar. 

Hoje não tem mais bullying na escola: agora, é você que pratica bullying com você mesmo.

Mas, eu tenho fé, que com isso a gente pode parar.


Douglas, cuidado, esse homem que tão tentando fazer você se tornar não sabe chorar. 

Ele acha que é forte, mas a máquina do capital neocolonial subverteu o que é força. Te fizeram achar que é pouco se expressar, que é jogar todas as suas emoções num grande armário de plástico, que é gastar. Só não te falaram que emoção é quente, sentimento é denso, e o armário, mais cedo ou mais tarde, vai derreter, vai quebrar.

E quando o homem cai do armário quebrado, ele destrói tudo que estiver ao seu redor.

Ele tem tanto ódio de si mesmo, que tudo vira um grande espelho, e é preciso sorte para conseguir quebrar esse espelho sem atravessar ele e ir parar do outro lado, sem volta.

Porque do outro lado habita o fim,

Habita o fim das possibilidades. Habita a agressão à mina que te acompanha, habita o abuso, o assédio. 

Habita o horizonte de eventos que, tal qual com o buraco negro, não tem passagem de volta, apenas de ida rumo à tua desfragmentação, à mais absoluta remoção de fazer algo diferente. Habita o fim. 

Tudo porque não te ensinaram a ser gente,

te fizeram achar que era máquina, 

te vendaram os olhos e te extirparam do que é

Ser

Humano.

Ver gente antes de ver mulher e homem.

Ver acolhimento antes de ver competição.

Acolher antes de validar.

Se é preciso validação, é porque faltou acolhimento.

Se há ódio, é porque faltou amor. 

Se há desejo, há falta.

Infeliz ou felizmente, criança das sombras de mim,

você não vai ter muitas escolhas tão cedo,

mas quando perceber que pode ser teu próprio guia,

caminha em direção à luz.

mas não esquece que ela tá longe,

que é trabalhoso andar, 

que o caminho é imenso,

e que no meio dele você vai acabar olhando pra trás,

e aí você vai ter duas opções:

correr de volta em direção à própria sombra, 

que encolhe o caminho pelo qual você já passou,

que te olha com olhos sangrando e te lembra

que nela é mais fácil viver,

mas ela mente, e não é por ser ruim, não

mas por ser a representação última do medo que te habita.

A outra opção é lembrar quando olhar pra trás a identificar os padrões que te fizeram sofrer, encarar eles no fundo dos olhos bem abertos e não reagir, aí eles vão perceber que são besta e vão parar de te perseguir.

Igual quando você tá andando na rua

e um cachorro brabo resolver ir atrás de você

Se correr, fudeu.

Se olhar por um momento e só olhar,

ele é quem vai ter de medo de você e do que você tá se tornando.

Enfim, se eu puder te dar um conselho, versão ainda inocente de mim, com tudo pra viver e se deleitar e sofrer, é o seguinte:

CHORA!

Porque chorar é expurgar da carne o que nela não deve habitar.

Você vai esquecer disso várias vezes no caminho, 

mas essa verdade reside em ti desde que a luz te recebeu no seu nascimento.

No princípio, veio o choro, e é só por causa dele que você começou a respirar.

É com ele que você lembra o que é ser humano,

ele que é o abrir mão completamente do controle, ele é se entregar, se render, ainda que só por um momento.

Sem ele, você é um vulcão contendo a própria erupção.

Lágrima contida vira fogo interno,

e não o tipo de fogo bom, que dá vida, que purifica,

mas o que queima e dói no fundo da alma,

e vulcão que contém erupção explode

e acaba com tudo ao seu redor.

Eu te amo, parceiro interno, ou tô aprendendo a te amar.

Brasil por quem

essa tua língua brasileira esse teu jeito cheio de afeto de ser esse abraço sincero em desconhecido dividindo cerveja no bar em copo pequeno...