sexta-feira, 14 de novembro de 2025

2052

 se você acha que o capitalismo começou quando o feudalismo acabou,

se enganou.


aquele sistema apenas se adaptou,


(como consequência ou como negligência? teleologia ou história?)


sagaz.


quem manda e quem obedece ainda é a mesma gente,

voraz.


se você pensa que a escravidão terminou,

olha de novo,

presta atenção,


não foi por humanidade, compaixão,

que as correntes que prendiam teus antepassados se abriram.


é mais fácil te escravizar se a tua prisão é invisível,

violenta mas sutil,

mascarada de liberdade.


"liberdade é escravidão, 

guerra é paz,

ignorância é força"


e, não por acaso,


liberdade se tornou escravidão

guerra se tornou paz

ignorância se tornou força


a matrix é real

simulações e simulacros

mas é pautada em linguagem

signos, significantes e significados, 

trabalhados em prol da distorção de cada expressão

com o objetivo de te distanciar dos teus irmãos.


no mundo da pós-verdade

dentro da mesma língua brasileira


liberdade, pátria, progresso, Brasil, bandeira,


foram tomados de assalto 

pela elite que te consome

e foram travestidos dos seus opostos.


e agora

ninguém mais se entende, irmão.


é tipo infecção

e a cura é a educação real

porque, cuidado,

até ela foi rebaixada ao status de utilitária.


te fazer achar que tua escravidão é liberdade

torna bem mais fácil te dominar.


se liberdade é liberdade de consumo

então não passamos de um câncer que corrói a pele que habita


mão-de-obra assalariada,

cansada,

inutilizada,


na história também 

nada se perde e nada se cria, tudo se transforma.


que sejamos aproximadores

não detentores de verdades absolutas

que aprendamos a nos reconectar

com os lados com os quais não sabemos lidar

de nós e do outro.


sonho distante?

não sei

mas aprendi com o Jhon que não sou o único sonhador 

domingo, 9 de novembro de 2025

Xadrez

A gente podia tá unido!

Tamo aqui lado a lado,

mas não confunde:

estar do lado de alguém não é sinônimo de caminhar junto


A gente podia ter vencido!

mas se quebrou no próprio reflexo 

num espelho sujo

de um banheiro inóspito

com a boca cheio de ego


quis brilhar como estrela

brilhou como fogueira

que leva embora tudo o que não serve mais.


sonhos carbonizados de um passado ainda presente.


ausente.

de potência pra mudança real


decadente

ideia que faz parte de uma moral

sem moral

sem nem perceber a gente tava tudo fazendo igual.


Quando a educação não é libertadora,

Freire, 

o sonho do oprimido é se tornar um grande otário.


Vai com calma com a tua dor

ela dói e num vai deixar de doer

tu é produto da tua história

fruto da memória dos dias que não vivemos mais.


mas tu é também o precursor do futuro que te espera.

a partir do presente que te afoga

nesse mar de eu, eu, eu, eu.

EU

EU

eu

                EU, EUeueueueu


Eu cansei de me afogar em eu.


Me isolei, atormentei, fermentei tanta ideia 

sem deleite de nenhuma plateia

Eu que tenho o mesmo sangue que tu.

Eu que lembro que quem fazia parecer que branco era uma coisa e preto era outra

cada vez mais passa vergonha

não aos olhos do público

mas da memória

que nunca vai esquecer 

o que já dizia o professor:

"um branco e um preto unidos, resposta que cala o ridículo".


Vai com calma com a tua dor

ela dói e não vai deixar de doer

até você entender

que junto a gente caminha

ou vamos continuar a perder.


a fé

a paciência

a sanidade

a alma

a vida


pra um sistema que te quer


SE PA RADO

ainda que perto


SE GRE GA DO

ainda que lado a lado


DO MI NA DO

direita e esquerda


pensamento

CO LO NI ZA DO


nos tornamos o que não queremos

viramos progressistas e republicanos

organizaram nosso ódio

pra ser destilado entre nós

porque eles tão bem longe daqui


a história te pariu, te moldou, 

e se tu não olhar pra ela

não vai saber de onde tá vindo

pra executar o que precisa 

pra se libertar do que nunca te pertenceu


aprendemos bem a arte de seguir a metrópole

ensinaram 

na sagacidade sutil 

do controle absoluto.

controle de mídia, poluição mental,

saiu na TV, no jornal, agora na tela na sua cara te deixando sem opção


coação

coagidos

 

te fizeram focar na tragédia

e esquecer que o outro lado dela é a comédia

de viver em um mundo de lados e debates múltiplos

mas não fragmentados

que deviam costurar um no outro os elementos que faltam em si mesmos.


esquerda burra que de minúcia em minúcia só vai ficando mais impotente.

distante

da luta de reaproximação

do reestabelecimento de diálogo

de entender como acreditar na gente.

de como era logo antes de 1964,


não era ideal não, irmão

mas era o Brasil pensando no Brasil

com a víbora norte-americana sondando

esperando o momento de atacar com precisão

desmontar

recriar

com a cara deles.

e a tua cara no chão, lambendo bota

contando nota

achando que é fodão.


e desmontaram, e recriaram.

e hoje tu é produto de quem te consome

te devora em banquete de terno e gravato

com tua cabeça numa bandeja


dissolvido, retraído, esquecido, cansado, deprimido, com medo, 

é assim que quem detém os teus grilhões te quer

dividido, confuso e esquecido.


o caminho do meio existe

e ele não é o centro.

certamente não é pacífico

muito menos enfeitado de acerto

nem nome ele tem

não é terceira via, nem quarta, nem quinta

mas definitivamente num é a primeira nem a segunda

servem a real interesse social nenhum.

servem, sim, à manutenção do teu cansaço

servem para evitar revolução


tudo

blindado.


o que já foi possibilidade não é mais

e o que vai ser depende de entender

conjuntura, sociedade e estrutura,

pra buscar outros caminhos

antes que o caminho acabe.


é erro atrás de erro, 

até a gente entender

que é de gente que a gente se faz


e a gente é falho

e a gente falha

a gente erra

mas a gente corre atrás de entender.

e enquanto não entender

segue errando, 


mas fazendo

até quem sabe um dia perceber.

________________________________________

Versão Slam:


A gente podia tá unido!

Tamo aqui, lado a lado,

mas não confunde


A gente podia ter vencido!

mas se quebrou no próprio reflexo 

com a boca cheia de ego


quis brilhar como estrela

brilhou como lenha usada na fogueira

repetindo os mesmos erros de um presente


ausente.

de potência pra mudança real


decadente

ideia que faz parte de uma moral

sem moral

sem nem perceber a gente tava tudo fazendo igual.


Quando a educação não é libertadora,

Freire, 

o sonho do oprimido é se tornar um grande otário.


Vai com calma com a tua dor

ela dói e num vai deixar de doer

tu é produto da tua história

fruto da memória dos dias que não vivemos mais.


mas tu é também o precursor do futuro que te espera.

a partir do presente que te afoga

nesse mar de eu


Eu cansei de me afogar em eu.

Me isolei, atormentei, fermentei tanta ideia 

sem deleite de nenhuma plateia

Eu que tenho o mesmo sangue que tu.

Eu que lembro que quem fazia parecer que branco era uma coisa e preto era outra

cada vez mais passa vergonha

não aos olhos do público

mas da memória

que nunca vai esquecer 

o que já dizia o professor:

"um branco e um preto unidos, resposta que cala o ridículo".


entende

junto a gente caminha

ou vamos continuar a perder.


a fé

a sanidade

a vida


pra um sistema que te quer


SE PA RADO

ainda que perto


SE GRE GA DO

ainda que lado a lado


DO MI NA DO

direita e esquerda


pensamento

CO LO NI ZA DO


progressistas e republicanos

americanos

não latinos

organizaram nosso ódio

pra ser destilado entre nós

porque eles tão bem longe daqui


a história que te pariu, te moldou, 

e se tu não olhar pra ela

não vai saber de onde tá vindo

pra executar o que precisa 

pra se libertar do que nunca te pertenceu


aprendemos bem a arte de seguir a metrópole

ensinaram 

na sagacidade sutil 

do controle absoluto.

controle de mídia, poluição mental,

saiu na TV, no jornal, agora na tela na sua cara te deixando sem opção


coação

coagidos

 

te fizeram focar na tragédia

e esquecer que o outro lado dela é a comédia

de viver em um mundo de lados e debates múltiplos

mas não fragmentados

que deviam costurar um no outro os elementos que faltam em si mesmos.


esquerda burra que de minúcia em minúcia só vai ficando mais impotente.

distante

da luta de reaproximação

do reestabelecimento de diálogo

de entender como acreditar na gente.

de como era logo antes de 1964,


não era ideal não, irmão

mas era o Brasil pensando no Brasil

com a víbora norte-americana sondando

esperando o momento de atacar com precisão

desmontar

recriar

com a cara deles.

e a tua cara no chão, lambendo bota

contando nota

achando que é fodão.


dissolvido, retraído, esquecido, cansado, deprimido, com medo, 

é assim que quem detém os teus grilhões te quer

dividido, confuso e esquecido.


tá tudo

blindado.


o que já foi possibilidade não é mais

e o que vai ser depende de entender

conjuntura, sociedade e estrutura,

pra buscar outros caminhos

antes que o caminho acabe.





domingo, 5 de outubro de 2025

dor

o azul do céu é ironia em um coração que sentia. a graça da vida que segue se perde diante do que a memória guarda. sou corpo vivo. cadáver adiado. espírito medicado. anestesia que permite vaga ideia do que já significou amar e viver. [hoje] ainda piso descalço nos restos de alguém que já fui, derramados entre a cozinha, a sala e o quarto, no mesmo lugar em que você se foi. pés sangram por descuido. sou [saudade)))]. ela já não é parte de mim. ela sou [(((eu]. antes dela achava que sabia. depois dela até o brilho do sol é incerto. [purgatório]. quem morreu fui eu. quem segue é o espírito que sou antes de ser [eu]. à espera do retorno ao que nunca vou deixar de ser. [morte] a própria sorte é saber: um dia vou deixar de ser. o bom. o ruim. a memória. o esquecimento. o azul do céu. a ironia. a cor do sol. impermanência. por enquanto. por aqui sigo. penso. diante disso tudo me ligo. [irmão] quase quatro anos inteiros. como você tá? o que eu posso fazer pra ajudar? o desespero tranquilo de perceber que o mundo nunca vai deixar de ser belo, com ou sem eu e você. 

quinta-feira, 31 de julho de 2025

respira

Abraço

Bom

Como

Dia

Ensolarado

                        Entre sem bater

Fico

Grato

Hoje

Ideia

Justa

Karma

Luta

Move

Nutre

Observa

Possibilita

Questionamento

Raramente

Sabendo

Todo

Universo

Vale

W

X

Y

Z


---------------

o que eu gosto mesmo na gente

é como a gente trata a gente

toda gente

não só quem parece conveniente 

todo sobrevivente de si e do mundo


viver é perigoso

mas a gente consegue


acalenta o coração olhar pro lado

e ver um sorriso sincero de uma pessoa pra outra pessoa


(sabe se a gente vai ficar bem um dia?)


o cosmos todo te habita 

e ao mesmo tempo te abriga

num abraço bem dado

de coração aberto

despretensiosamente

ali, onde é pra tá.


uma palavra ou outra de acalento

"pode chorar. 

cada lágrima vai tirar de você

o que você não vai mais precisar"


"pode rir, 

tá tudo bem ser você

bem desse jeito aí que tu é 

te resta aprender a aproveitar

cada oportunidade de amar

errar, aprender, mudar

cada memória criada 

em cada riso compartilhado


tipo fala de preto velho

"se cê soubesse sempre o que fazer

nem precisaria tá aí fazendo" fio

eu ouço a voz me falar em cada dia que me esqueço de mim


respira, douglas


a vida é aula sem pressa

é dona Janaína que vem

te observando a nadar

nesse mar de sangue

cuidado pra não se afogar

na mesma água que te permite existir

sob o mesmo sol que te alimenta 

mas, sem cuidado, te queima


deixar um pouco de silêncio pra mente

pra dar um pouco de silêncio pra dor

e deixar ela ir embora

não prende ela no meio do teu caminho

deixar ela passar

ela vai com graça

levando a desgraça pela qual você teve que passar.


o propósito é evidente

o caminho imprudente

a vida é trem doido

desgovernado

mas andando dos trilhos

das possibilidades que restam.


eu só sei que

na verdade

talvez sejam

Linhas tortas que escrevem certo por Deus


é preciso imaginar Sísifo feliz

subindo a montanha com seu fardo

tipo cada palavra que eu não guardo

que vou derramando no papel 

sem nem saber direito pra quê


2 min



-------------------------------------

ensinar língua inglesa ter crescido inserido nessa cultura

professor de inglês por consequência 

dessa culta americanizada de merda

ao menos dela eu tiro grana


ces tão ligado

na ideia do destino manifesto


acharam que era pra eles ensinar o mundo a ser m2undo



-----------------------------------------------------------

mente a milhão

tipo

vulcão em erupção

pra acabar com tudo

e começar de novo


é preciso imaginar Sísifo feliz

eu ouvi

não gostei


é loco que a mente flui e deságua

sexta-feira, 27 de junho de 2025

de hoje

falo contigo sem ter muito o que falar

minha vida faz isso

silencia pra reorganizar

ainda que no meio do caminho tudo vire uma bagunça

toda vez

faz, faz, faz, 

satisfaz

alguma coisa que você não sabe bem explicar

por que passo tanto tempo sem escrever

porque se escrevo me descrevo como quem imagino ser

e de imaginação eu tô farto

vamos reformular isso tudo

imagina de novo

pode ser mesmo isolado dentro do quarto

só toma cuidado

só tu e tuas sombra conversando lado a lado

sem tudo ouvir nada

mas interligar tudo

com cada ação

ou inação

nesse mundo de competição

só muito amador ainda na arte da cooperação

encarando a tela e buscando distrações

preso na matéria que me encarcera até o dia em que vou colher o resultado de todas as minhas ações

ou inações

a saudade que eu sinto é de pensar e sentir um pouco mais linear

saber da causa ver o resultado do que é feito ou não feito e concluir

desde que aconteceu aquilo lá

a mente explodiu, se destruiu, morri junto com uma das pessoas que mais amava

e tive que refazer tudo que eu achava que eu era

saudade?

de não sentir a sensação de que tá faltando um

o zum zum zum da mente em cada lugar em que me pega de surpresa

tô ali olhando pro céu

de repente

olho pro lado

e...

tu podia tá ali

mas tu mostrou e não só pra mim voltando pra avisar que foi pra algum lugar

e aí eu fui atrás de ver qual é 

espírito, espiritual

eu tinha deixado de botar fé

que além daqui 

tinha outra rima acontecendo

talvez tudo ao mesmo tempo

misturado aqui

se separando com as limitação da percepção

olha ele

preso no passado

ou só analisando cada fato

pra poder saber quem sou

o que tô aqui pra fazer

será que falta planejar?

será que é só parar de se perguntar

e ser

ou será que é igual os meus texto

uma mistura meio desorganizada

ainda que alinhada,

da minha alma do meu corpo e da minha mente  

que tô sempre precisando cuidar

pra não entrar na frente 

atrapalhar

trabalha comigo 

e não contra mim

pode ser?

fala isso pra si mesmo 

mas já esperou pelo fim

que nunca chega

e nunca vai chegar

meu irmão me mostrou que a gente é eterno

voltou em dois lugar ao mesmo tempo falar

sem dizer nada

"salve! fui por aí."

nem pra complementar

bem a tua cara

deixar nóis tudo curioso

querendo saber

pra onde vamo

depois de tudo isso acabar

mas tudo bem

mandou bem

entendi que é só seguir, de alguma forma

e por alguma razão, se pá, tamo aqui pra ficar

não só do lado de cá

mas agora tamo aqui e que bonito aprender cada vez que ouço alguém falar

do que é ser o que se é

de passar pelo monte de perrengue que é ser brasileiro em 2025

e não só agora

memória

história

vamo tentar só aos poucos ir parando de errar


sábado, 15 de fevereiro de 2025

descoloniza a língua

descoloniza a língua
fala o que tu é de verdade
sem se preocupar com forma e disfarce

arte não precisa ser arrumadinha como eles querem não

arte é cultura crua
cultura é tudo
o pão que tu come de manhã, o bom dia que tu dá, o bom dia que tu não dá, até teu jeito de caminhar. 
cada movimento
escolha e consequência 
de cada ser humano
político
querendo ou não
ou melhor...
sabendo ou não.

viver é perigoso
educar é mais ainda

já que pode te libertar e te tornar consciente
ou te aprisionar mais fundo fazendo tu achar que ninguém tem valor
além do valor de mercado
que só consumir é que faz sentido numa vida sem gosto de vida.

o que tu ganha é o que tu é.
o que tu tem é o que te faz gente
nesse mundo de aparência besta.

(o sal vem do mar 
dona Janaína
mãe d'água 
deixa eu começar mais uma vez)

arte é tudo que tu é aí dentro
vivo ela instável
de temperamento nem sempre agradável
abandono ela quando me abandono
em geral sem perceber direito o que tá acontecendo

escrevia, daí já não escrevia mais.
ainda que de pausa em pausa ela sempre volte.
e sempre mais forte.

tô aprendendo a respeitar o ciclo inconstante que vivo

uma hora tô ali fluindo fazendo
aí de repente esqueci como faz

tipo adormecer despreparado
acordar no susto atordoado e atrasado
pro trabalho que mal sustenta
a alma, o espírito, a vontade
sabendo que tem tanto que é de veerdade a ser feito

tem toda uma matriz de linguagem
te prendendo os neurônios em cada preposição
em cada autocorreção
em cada crítica que tu faz de cada palavra que sai da tua boca e da boca dos teus irmão

ouve bem:
nóis fala do jeito que nóis quiser
e num é bem por querer não...

é só por ter nascido num lugar qualquer
que vale tanto quanto qualquer outro lugar que fale de tantos outro jeito

ao mesmo tempo importante e desimportante
nem maior nem menor do que nada

é só diferente
e isso é tão simples
falar difícil pra convencer quem de que se é o que num se é?

começa na língua o processo da tua dominação
e se perpetua na prática social

"nóis" é só a gente mudando o jeito que a gente fala.
pra ficar mais bem falado, saca?

um dia "vossa mercê" virou "você" que virou "cê".
um dia esse mesmo "você" foi motivo de graça pra quem só queria a tua desgraça. 
minha vó tomava café com "açucre", e que saudades.
enriqueçamos a língua. sejamos neologistas de si mesmos. criadores do próprio universo de fala e dos próprios caminhos.

a regra que tu, 45, fale como 11 ou como 21
igual na tua metrópole local
porque a metrópole real tá a um oceano de distância
e dividiram nóis entre eles
como se nóis nada fosse

______________________________________

como se por falar nóis,
nóis fosse qualquer coisa menos que nóis
e nóis manda bem demais se nóis quiser.

cansou de nóis?
desfaz eles então
nó vira laço 
que vira corda 
que vibra vida.

e lembra que, na real, são linhas tortas escrevem certo por Deus.

falo e falo, mas sou também só uma circunstância do que fiz pela vida.
estudei que a língua brasileira se chamava língua portuguesa.
estudei que um dos principais pontos que une uma nação é a unidade linguística
percebi mais tarde que essa é uma das maiores ilusões em que eu já botei fé.

"botar fé". bote mesmo. coloque. ponha a fé onde quiser.

a unidade é local, não global.
somos um planeta de gente e de língua. 
que é viva e nunca se pretendeu bonita.
quem faz a beleza de falar é quem fala,
não quem escreve a "Moderna Gramática Portuguesa".

pros infernos com essa dominação sutil.
meu discurso, nem sempre sutil, mas sempre orientado
por aqueles que entenderam a simplicidade do falar
grande Freire, Ribeiro, de rio de água de palavra que conecta.

que haja conexão.
a única razão da palavra existir é conectar.
religare.

quem sabe não estamos aqui apenas pra mudar as palavras tanto a ponto de um dia não precisarmos mais delas. conecta, conecta e conecta até que não seja mais possível desconectar.

pega cada palavra configurada pelos detentores dos teus grilhões
das corrente que te prendem no chão
e fala elas como tu quiser
porque esse negócio de se aceitar começa pelo que te liga aos teus irmão: comunicação.

tuas palavras não existem pra te fazer falar bonito
elas existem pra te fazer se conectar

e, sinceramente, no momento eu tô meio perdido das palavras.

o que sou
não sou
vou ser
o que fui,

de que problema sou meu próprio criador?
de que problema sou refém?

paradoxo.
entre-lugar.

ansiedade que me corrói 
quando percebo que, pra realidade
cada palavra é um degrau
pra ascensão social.

no mesmo mundo em que tanto se fala em aceitação
a práxis me diz que a gente é tudo refém
de propaganda em vídeo curto em rede social
de precisar de moeda de troca pra conseguir existir
pra ser o humano que querem que tu seja.

ascensão real é abraçar, aceitar e respeitar 
tuas próprias palavras,
que vem dos teus próprios pensamentos
que tu nem sabe se são teus.

o cérebro é um mar de cor e som
o que tu vê e o que tu ouve
te transformam na tua condição.

de repente eu me calei
quando percebi que nos últimos tempos eu cedi
pra minha própria mente
pra tudo que eu escrevo que não deveria fazer

"no começo era o verbo"
cheguei aqui sem saber bem o que ia falar
aí fui dizendo
se pensei, falhei
se falei, exitei.

mas não aquele hesitar de parar, travar, não saber por onde ir.
tô falando de hesito, de conseguir, quando nem precisava falar.

ah, a língua brasileira é linda
ela canta, dança e inventa o que quiser.
pega verbo, substantivo e adjetivo e faz da língua samba.

hesitar e exitar são a mesma coisa e ao mesmo tempo um não tem nada que ver com o outro.
se eu hesito, eu travo.
mas se houver êxito, eu consigo.

veja bem:
"mê vê" um pouco de paciência.
"caiu a ficha" quando eu percebi
que "cada macaco no seu galho" 
é a pragmática em ação.
e se "na casa do ferreiro o espeto é de pau".
é porque o ferreiro tá ocupado demais fazendo o espeto encomendado.

não vou citar autor não
porque você precisa tomar a autoria nas suas próprias mãos.
ainda que o mundo te frustre.
ainda que pareça que o que tu faz não significa nada.

ainda que a teoria e a práxis residam a mares de distância.
ainda que eu, enquanto professor, me ache uma farsa enorme.
ainda que o desespero bata na minha porta em tantas manhãs
acordadas sentindo que a escola é uma manutenção do trabalho e não do ser humano.

é muito estranho ser professor, estudar e cansar de tanto citar autor e fazer referência ao que não fala daqui.

preciso de palavras reais. a conexão real vem com o que tu diz, que, ainda que seja delimitado pelo que tu já ouviu ou leu. não quero saber de pretensão. quero saber da humildade de fazer das próprias palavras ponte, pra chegar de uma pessoa até outra pessoa.

"pega a visão": "se é macumba não chuta não".
laroyê, meu protetor.
"respeito é pra quem tem".

e eu nem sei se tenho,
respeito pelos outros é mais fácil
do que respeito por si
por eu mesmo que volta e meia recaio
em questionar tudo que me faz eu.
em me sentir inválido 
mesmo sabendo que invalidado eu fui por mim e pelo que me formou.

que coisa doida viver esse paradoxo de se reconhecer enquanto vontade de existir e ao mesmo tempo enquanto ser hesitante, desses que param e não seguem adiante. 

apesar de tudo isso: o movimento não para. quem para de vez em quando são as palavras que fluem por meio de mim.

não sei se essas travas são por causa do passado que vivi 
ou porque vivo de um presente isolado
tentando disfarçar o que vim aqui de verdade pra falar
com palavrinha bonita que não serve nem pra enfeitar o altar,
onde agradeço e peço, 
por um mundo melhor, 
    por dias de paz, 
        e também por conseguir lutar até entender, até aceitar, que é preciso confiar 
                                                        e não ter medo.

porque medo, esse é o contrário de fé.
e não há meia fé.

ou há fé
ou há medo

essas duas não se confundem em encruzilhada nenhuma.

"quem tem fé tem tudo, quem não tem fé não tem nada."

e eu, mesmo com a minha fé, de repente acordo num dia qualquer e concluo que nada tenho, que não sou, que nada valho.

atormentado pelas mesmas palavras que eu tanto estimo.
silenciado por eu mesmo em cada troca.
convencido, caído, mas pra logo me levantar.

"pra boa palavra, meio entendedor basta".
então diz o que precisa, e fala o que puder.

....................

VERSÃO SLAM

descoloniza a língua
fala o que tu é de verdade
sem se preocupar com forma e disfarce

arte não precisa ser arrumadinha como eles querem não

arte é cultura crua
cultura é tudo
o pão que tu come de manhã, o bom dia que tu dá, o bom dia que tu não dá, até teu jeito de caminhar. 
cada movimento
escolha e consequência 
de cada ser humano
político
querendo ou não
ou melhor...
sabendo ou não.

viver é perigoso
e educar é mais ainda

já que pode te libertar e te tornar consciente
ou te aprisionar mais fundo fazendo tu achar que ninguém tem valor
além do valor de mercado
que só consumir é que faz sentido numa vida sem gosto de vida.

arte é tudo que tu é aí dentro
vivo ela instável
de temperamento nem sempre agradável
abandono ela quando me abandono
em geral sem perceber direito o que tá acontecendo

escrevia, daí já não escrevia mais.
ainda que de pausa em pausa ela sempre volte.
e sempre mais forte.

tô aprendendo a respeitar o ciclo inconstante que vivo

uma hora tô ali fluindo, fazendo
aí de repente esqueci como faz

tipo adormecer despreparado
acordar no susto atordoado e atrasado
pro trabalho que mal sustenta
a alma, o espírito, a vontade
sabendo que tem tanto que é de verdade a ser feito

tem toda uma matriz de linguagem
te prendendo os neurônios em cada preposição
em cada autocorreção
em cada crítica que tu faz de cada palavra que sai da tua boca e da boca dos teus irmão

ouve bem:
nóis fala do jeito que nóis quiser
e num é bem por querer não...

é só por ter nascido num lugar qualquer
que vale tanto quanto qualquer outro lugar que fale de tantos outro jeito

ao mesmo tempo importante e desimportante
nem maior nem menor do que nada

é só diferente
e isso é tão simples
falar difícil pra convencer quem de que se é o que num se é?

começa na língua o processo da tua dominação
e se perpetua na prática social

"nóis" é só a gente mudando o jeito que a gente fala.
pra ficar mais bem falado, saca?

um dia "vossa mercê" virou "você" que virou "cê".
um dia esse mesmo e "correto" "você" foi motivo de graça pra quem só queria a tua desgraça. 
minha vó tomava café com "açucre", e que saudades.
enriqueçamos a língua. sejamos neologistas de si mesmos. criadores do próprio universo de fala e dos próprios caminhos.

a regra é que tu, 45, fale como 11 ou como 21
igual na tua metrópole local
porque a metrópole real tá a um oceano de distância
e dividiram nóis entre eles
como se nóis nada fosse

"no começo era o verbo"
cheguei aqui sem saber bem o que ia falar
aí fui dizendo

a língua brasileira é linda
ela canta, dança e inventa o que quiser.
pega verbo, substantivo e adjetivo e faz da língua samba.

veja bem:
"mê vê" um pouco de paciência.
"caiu a ficha" quando eu percebi
que "cada macaco no seu galho" 
ainda precisa da árvore em pé
e se "na casa do ferreiro o espeto é de pau".
é porque o ferreiro tá ocupado demais fazendo o espeto encomendado.

é não esquece que
se pá,
são as linhas tortas que escrevem por Deus.


 

quarta-feira, 24 de julho de 2024

a vida e as brisa da vida

a vida e as brisa da vida
sem pretensão de falar bonito
só falar sincero
ao menos assim eu espero
já que nem sempre
a mente tá sagaz
de vez em quando rasteira
pra tu não esquecer
que aqui nesse planeta
ainda tem muito que se aprender

a vida e as brisa da vida
dia de sol me levei pra passear
fumei brisei 

a vida e as brisa da vida
um abismo no meio do caminho
anda e salta ou cai
essa é a única escolha
desce rápido
no chão atortoado
levanta o rosto marcado
pela maldição no meio do caminho
se arrasta ou espera um pouco essa porra passar
é solitário no fundo do abismo
nada é familiar
é tudo recomeço
levanta anda tropeça 
cuidado com teus passo
refaz cada pensamento que 
entrou na frente de cada sentimento
de sempre ter sabido o que fazer
e ainda assim não ser
nada além das escolhas que eu fiz
condicionado pelo que absorvo
ainda assim ser não de livre arbítrio pra escolher o que vai acontecer
mas de libre arbítrio de levantar e continuar a caminha

e anda
anda
sem saber ainda direito o que tá acontecendo
será que um dia soube
eu sei lá
eu sei lá

a vida e as brisa da vida
coisa boa esse negócio de jogar no papel
o que a vida vai sendo
sem pretensão de viver bonito
mas de viver sincero
assim espero

a vida e as brisa da vida
tudo contida
num mesmo dia
da tristeza de certas lembrança
à coruja no fio de luz olhando pro sol
da confusão de uma noite de sonho estranho
à leveza de uma praça num dia de sol
que bonito esse mundo escroto
que desastre não viver a vida
não que eu viva

(cicatriz) 

2052

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